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FILHO DA NOITE
As noites de novembro no Porto de Santa Cruz são melancólicas. Ouve-se apenas o cri-cri dos grilos, um ou outro sapo tanoeiro em seu luau incansável e, para quem mora perto da igrejinha, o crocitar da velha coruja.

Numa dessas noites, João Peva subia vagarosamente a rua da igrejinha. A lua já havia cruzado o céu da meia noite, quando ele viu algo mexer próximo da escadaria e esconder-se numa moita mais adiante. Um calafrio lhe correu pela a espinha dorsal. Pensou em voltar para a casa de Maneca, sua irmã. Mas ter que atravessar o rio novamente era muito mais trabalhoso e perigoso. Ainda mais que Rio Pardo estava em período de cheia. Não dava. O melhor era enfrentar o tal vulto. Deu mais alguns passos. A moita suspeita se assanhou. Pensou: “deve ser algum animal procurando por alimento.” Aproximou-se mais um pouco. As folhas balançaram. Arrepiou-se por completo. Foi como se as palavras de sua mãe tomassem vida.

— Meu filho, depois da meia-noite as almas andam soltas. Cuidado!

Olhou para trás. Novamente, pensou em voltar. Mas, pelo modo como o mato se sacodia, não poderia ser causado por algo que oferecesse grande ameaça. Aproximou-se um pouco mais. Logo, ouviu um miado baixo, mas o bastante para acalmar o seu coração que parecia sair pela boca. Afinal não era assombração. Era um gato preto, tão negro que só era possível ver o reluzir de seus olhos em contraste com a lua.

— Bichano, bichano! — chamou.

O bicho correu em sua direção. Deu uma volta pulando em suas pernas como se quisesse brincar. João riu carinhosamente. Fazia anos que não brotava nele um sorriso tão paternal. Agachou. Pegou o animalzinho e o abraçou como se quisesse protegê-lo. E realmente foi o que fez.

— Calma, amigo, calma!

Descendo um grotão, alcançou a sua velha casinha. Lugar que tanto conhecia seu cansaço, seus lamentos de solidão, suas tristezas enfim. A pesar da energia elétrica que clareava a vizinhança, ainda preferia o velho fifó a diesel que clareava vagarosamente. Acendeu o fogo a lenha. Requentou o feijão do meio dia. Fez uma farofa com ovo e dividiu com o seu novo amiguinho.

— A partir de hoje, seremos uma família. Aqui você não vai passar fome. Pelo menos o feijão com arroz, eu garanto. Se tem uma coisa que não suporto é ver alguém com fome. Não importa se homem ou animal. Não suporto isso.

Após a refeição, escorado no canto da cama de palha, João adormeceu profundamente. Acordou, na manhã seguinte, com os primeiros raios de sol atravessando a fresta da janela do quarto. Imaginou que tivera sonhado a noite toda. Mesmo assim, olhou para os quatro cantos do quarto tentando encontrar algum vestígio do pobre felino.

— Bichano! Dody, venha cá! Aqui, bichano! — nada ouviu.

Passou o dia achando que aquilo tudo fora um sonho mesmo. Tinha de se contentar com a solidão novamente. Nem mesmo os bichos seriam capazes de conviver ali, naquele recanto esquecido. Porém, ao anoitecer, enquanto fritava algumas piabas para fazer uma farofa, ouviu novamente o miado. E os olhos do negro bichano brilharam em sua direção. Então, acalmou-se novamente. Não estava louco. Era real mesmo. O tal gato existia. E era seu amigo. Afinal, estava ali novamente.

— Venha cá, Dody, venha! Olha só que delícia vamos comer!
Depois de comerem, ainda ouviram um pouco de rádio. Logo adormeceram.

No dia seguinte, nem rastro de Dody. Foi assim durante meses. Todas as noites o felino aparecia e dormia ao pé da cama de João. Até que um dia o bichano não voltou mais. E João se viu solitário mais uma vez. Compreendeu que na vida tudo era como aquele animal esquisito: aparece de maneira surpreendente e desaparece estranhamente; compartilha de alguns momentos, depois deixa a saudade miando dentro do nosso peito. Assim tivera sido na vida de João Peva: ficara órfão muito cedo; tinha somente uma irmã, que logo se casou, deixando-o sozinho. Os demais parentes, todos foram para São Paulo; inclusive, a sua namorada Dorotéia. Esta fugira com Zé Bigó, às vésperas do casamento. Dela, só restou a lembrança. Corre um boato daqui outro dali, mas onde vive, se é feliz ou não, nada. Agora experimentava do abandono novamente.

— Venha cá, Dody, venha! — ele não veio mais.

Dody era filho da noite e fora levado pelo clarão da lua cheia. Talvez na lua nova ele volte... Uma coisa era certa: todas as noites, João dava uma volta em torno da igrejinha, antes de dormir.
***
GILMAR PEREIRA LIMA
Enviado por GILMAR PEREIRA LIMA em 20/11/2010
Alterado em 15/12/2014
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